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VÍDEOS 

Pequenos filósofos 1

Pequenos filósofos 2

 FILOSOFIA

1º ano do EM

2º ano do EM

3º ano do EM


O homem louco 

— Não ouviram falar daquele homem louco que numa clara manhã acendeu uma lanterna, correu até o mercado e gritou incessantemente: “Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!” — Como lá estavam muitos daqueles que não acreditavam em Deus, ele provocou uma grande gargalhada. Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse outro. Ou então ele se mantém escondido? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? — assim eles gritavam e riam uns para os outros. O homem louco saltou no meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “eu lhes direi! Nós o matamos, — vocês e eu! Todos nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando desacorrentamos esta Terra do seu Sol? Para onde ela se move agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Há ainda um ‘acima’ e um ‘abaixo’? Não erramos como que através de um nada infinito? O espaço vazio não nos sopra a pele? Não ficou mais frio? Não nos vem a noite continuamente? Não precisam as lanternas serem acesas de manhã? Ainda não ouvimos nada do barulho dos coveiros que enterram Deus? Ainda não sentimos nada do cheiro da putrefação divina? — também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como nos consolaremos, nós, assassinos entre os assassinos? Aquilo de mais poderoso e mais sagrado que o mundo tinha até então sangrou sob os nossos punhais — quem nos limpará deste sangue? Com que águas poderíamos nos purificar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos que inventar? Não é a grandeza desse crime grande demais para nós? Não precisaremos nós próprios nos tornar deuses, para ao menos parecer merecedores dele? Nunca houve um crime maior — e apenas quem nascer depois de nós pertencerá, por esse crime, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Aqui calou o homem louco, e observou novamente seus ouvintes: também eles calaram e olharam para ele com estranheza. Por fim ele jogou sua lanterna no chão e ela se estilhaçou em pedaços e se apagou. “Eu venho cedo demais”, disse ele então, “não é ainda meu tempo. Esse evento enorme ainda está a caminho e vagueia, — ele ainda não chegou até os ouvidos dos homens. Raio e Trovão precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo, crimes precisam de tempo, mesmo depois que foram feitos, para serem vistos e ouvidos. Esse crime ainda está mais distante deles do que o astro mais distante — e no entanto eles próprios o cometeram!” — Conta-se ainda que o homem louco, no mesmo dia, invadiria diversas igrejas e lá entoou o seu Requiem aeternam deo. Conduzido para fora e interrogado, ele sempre respondia isso: “Que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”

(NIETZSCHE, A gaia ciência, tradução de João Paulo Simões Vilas Bôas, aforismo 125, disponível em https://periodicos.ufes.br/estudosnietzsche/pt_BR/article/view/18273/12298, consultado em 25/06/2026)



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